Dia histórico (e triste) na Inglaterra

O Reino Unido está fora da União Europeia, e o que isso muda na minha vida? Em um primeiro momento, nada. Ao mesmo tempo, muita coisa. Nada porque como não tenho passaporte europeu, já enfrento as rígidas regras de imigração para morar aqui. Para mim, não vai ser novidade o UK tentar fechar as portas na minha cara. Já lido com isso desde 2014, quando apliquei para o meu visto de esposa.

Mas, como eu disse, ao mesmo tempo, muda muita coisa. Esse talvez seja o post mais pessoal que eu já escrevi aqui, mas sinto que se eu não falar nada, vou explodir! De choque, de indignação, de tristeza mesmo. Desde que eu mudei para o UK eu sempre brinco com a minha família que “a rainha não me quer aqui, mas vai ter de me engolir”, em tom de brincadeira mesmo. Claro que estou me referindo ao Home Office e às centenas de páginas de documentos (e de libras) que preciso juntar para ter o direito de morar aqui. Mas digamos que esse é um jeito engraçadinho que encontrei de dizer para os meus avós, por exemplo, que sim, existem dificuldades ao morar longe do Brasil.

Até então, era o governo me dizendo que eu não era bem-vinda. E fazendo as regras de imigração cada vez mais difíceis de se cumprir. Para vocês terem uma ideia, estou prestes a renovar o meu visto de esposa por mais dois anos e meio e isso me custará:

£ 811 – taxa da aplicação para eles analisarem meus documentos e renovarem o visto.

£ 500 de taxa do NHS – o Sistema de saúde público daqui, que agora pede que imigrantes paguem uma taxa para usarem o serviço que é PÚBLICO. Sim, eu tenho de pagar essa taxa mesmo já pagando imposto normalmente como qualquer inglês. Pago duas vezes.

£400 – se eu quiser fazer a aplicação pessoalmente ao invés de pelo correio (o que talvez vou precisar, porque preciso do meu passaporte para ir para o Brasil no Natal).

£ 150 – para fazer uma prova oral de inglês e “provar” (a prova só dura 10 minutos) que eu consigo me comunicar com o meu marido. Mesmo eu trabalhando em uma empresa internacional e eles sabendo disso. Mesmo eu tendo feito uma prova de inglês avançado da Universidade de Cambridge e ter passado, apenas três anos atrás. Acho que eles acreditam que é possível desaprender uma língua em três anos mesmo morando e trabalhando no país!

£19 – tirar impressões digitais no correio

£ indefinido – uma porcentagem do valor aplicação paga ao correio para eles mandarem uma ordem de pagamento para o Home Office. O formulário dá a opção de pagar por cartão de crédito e você preenche os dados do cartão e eles lá fazem o pagamento. MAS a pessoa que está me ajudando com o visto disse que já viu vários casos em que os dados do cartão não eram aceitos e eles devolviam a aplicação para a pessoa fazer de novo. E se o visto já tivesse expirado, a pessoa tinha que voltar para o país de origem e aplicar de lá. Claro que não quero correr o risco e vamos pagar para o correio mandar a tal ordem de pagamento.

Enfim, o objetivo do post não é falar das regras do meu visto, que ainda incluem documentos para provar que nosso casamento não é uma fraude, que o Ben ganha o suficiente para me sustentar e abrir mão dos direitos dele como cidadão inglês por ser casado com uma brasileira, entre outras coisas. Como dá pra ver, para eu conseguir ter o direito de morar aqui já é um sufoco para nós. E por isso eu dou risada quando amigos comentam: nossa, eu achava que por vocês serem casados você não precisava de nada disso!

Então por que o Brexit me deixou tão triste? Em poucas palavras, porque antes era o governo me falando que eu não era bem-vinda. Agora são as pessoas. 52% da população do Reino Unido votou para que o país deixasse a Uniao Europeia e apesar das questões econômicas envolvidas, o foco da campanha era a imigração. Existem muitos europeus morando aqui e os ingleses reclamam que eles roubam as vagas de emprego e usam os hospitais e as escolas e etc.

Então, meu amigo, se ontem pessoas por Londres tinham adesivinhos colados na roupa dizendo “I’m in!” e o clima era de que poderíamos vencer essa, hoje o clima é de ressaca. Muita gente me disse “o problema não é você, você é bem vinda aqui”, mas ao mesmo tempo reclamam do tanto de europeu que mora aqui. Uma coisa que eles não entendem é: estamos todos no mesmo barco. O Brexit me afetando ou não, sou imigrante e sinto que o país escolheu virar as costas para mim. E para todos os meus amigos europeus e brasileiros com passaporte europeu. Vamos todos nos dar um abraço? 🙁

Sem contar os problemas econômicos que isso pode trazer – não sou especialista, mas de tudo o que li, as previsões não são boas. Tenho medo ainda de o país ficar mais vulnerável ao terrorismo. Posso estar exagerando aqui,  mas li uma matéria na BBC semanas atrás que questionava a mesma coisa. E para quem convive com a ideia de que o alerta de terrorismo no país está em um nível super alto, escolher ficar sozinho não me parece uma boa ideia. Ainda que seja uma questão econômica. Ainda que existam organizações para ajudar o país caso algo aconteça, ainda que isso ou aquilo. Ainda que não tenha nada a ver, ainda acredito que juntos somos mais fortes, que pena que mais da metade da população não pensa assim.

Também é triste pensar na separação do Reino Unido como um todo. Inglaterra e País de Gales queriam sair, Escócia (que já pediu para sair do Reino Unido) e Irlanda do Norte queriam ficar. Começam a surgir comentários de que quem tem universidade votou para ficar, quem não tem tantos privilégios votou para sair. Ouvi no metrô alguém dizendo que “basicamente, todo mundo que lê o The Sun votou para sair”. Começam os julgamentos, os comentários, as análises…e até isso é triste.

E agora, como fica o futuro do país que se mostra tão dividido? Por enquanto não há respostas, só perguntas e um futuro incerto. No fim das contas, o sentimento é o mesmo de quando Temer assumiu o poder no Brasil: não podia ser verdade, não podia ser possível, até que uma hora foi. Não podia ser verdade que a Inglaterra iria dar esse passo para trás. Não podia ser possível que um país que tem Londres como sua capital, a cidade mais cosmopolita do mundo, iria passar uma mensagem de intolerência. Não podia, mas foi. Que dia triste para se morar na Inglaterra.

brexit

 

A temida imigração da Inglaterra

Hoje faz uma semana que embarquei com destino ao Reino Unido e tem tanta coisa para falar que fiquei pensando sobre o que escrever. Aí me dei conta de que a primeira coisa que me perguntam é se foi tudo bem na imigração. E também me dei conta de que foi por conta da bendita que eu vim para em Londres (sim, acreditem!). Ok, imigração it is then.


Posso dizer que a da Inglaterra é bem chata. Mas pode ser bem legal também. Aliás, como eu disse, eu vim para Inglaterra por causa da imigração. O meu plano A era ir para os Estados Unidos mas perderia muito tempo até que eu conseguisse juntar toda a documentação necessária para aplicar para o visto. Mesma coisa com o Canadá (que era uma opção mais barata e, na época, cogitável, digamos assim). Aí eu fui na agência de intercâmbio de uma conhecida e ela me perguntou: “por que você não vai para Londres? Lá não precisa de visto”. Foi com exatamente estas palavras que ela fez a sugestão que iria mudar minha vida.

Para vir para Londres, realmente, você pode não precisar de um visto. Tudo depende do tempo de permanência no país. Turistas e estudantes visitantes podem ficar no Reino Unido por até 6 meses e recebem o visto quando chegam no aeroporto. Isso é bom e ruim. Bom porque não tem a burocracia toda do visto e ruim porque nada garante que o oficial da imigração vai deixar você entrar no país.

Fato é que em comparação com outros países da Europa que visitei, os ingleses são bem chatos. Eles pedem documentos, querem ver se você tem a passagem de volta para casa, dinheiro, onde ficar, etc, etc…Na França eles só estamparam meu passaporte sem o oficial nem olhar para minha cara direito.

No Reino Unido eu entrei como estudante visitante por duas vezes – a primeira vez foi ok, a segunda nem tanto (eles implicaram comigo na entrevista e me deram um tempo menor de permanência). E agora que vim pela terceira vez tenho o visto de esposa, então foi bem mais tranquilo.

Em meio a todas estas experiências imigratórias, ouvi casos de familiares de brasileiros que moram aqui e foram barrados, pessoas que vieram para cá demonstrando que não tinha nada que as prendesse no Brasil, ou que não tinham dinheiro suficiente para se manterem como turista em uma cidade tão cara.

Assim como presenciei um caso no aeroporto de Heatrow de uma mulher cuja os oficiais não foram muito com a cara. Eu inclusive estava ajudando-a na tradução da conversa com um jovem oficial que estava sendo treinado por sua supervisora. O cara era simpático e estava tentando ser gentil, já a mulher ficou irritada porque a brasileira não tinha os documentos em mãos, só entregou o passaporte para o oficial da imigração e disse algumas coisas em português esperando que isso bastasse.

Então, depois de sentir na pele o que é a imigração inglesa e de ouvir tantas histórias, só posso dizer que tentar manter a calma e estar preparado e ter os documentos organizados é o ideal, além de ser muito, mas muito educado. Não tente fazer piadinha com o oficial nem banque o esperto. Entregue tudo o que tiver para provar que tem como se manter enquanto estiver em Londres (comprovante de dinheiro e hospedagem) e também que vai voltar para o Brasil (passagem de volta, comprovante de emprego, etc). Responda apenas o que lhe for perguntado e não tente falar em português com o oficial da imigração esperando que ele entenda. Faça algum sinal de que não entende inglês e eles irão arranjar algum funcionário ou alguém que está na fila para te ajudar.

Do mais, keep calm e aproveite a viagem!