Pela desvirtualização das amizades

Mudei para Londres tem mais de quatro anos. E já tive a oportunidade de conhecer várias pessoas por aqui, algumas marcam mais o nosso caminho, outras menos. Mas até o ano passado nunca tinha conhecido ao vivo pessoas com quem tinha contato apenas nas mídias sociais.

Sim, não sei se aí no Brasil rola muito disso,  mas aqui em Londres parece que tem uma comunidade que se fala/comenta nas fotos/curte as fotos uns dos outros pelo Instagram (e agora o contato começou a ficar mais “real” com o Snapchat também).

Muitas vezes a gente não se conhece, mas rola aquela afinidade mesmo que sendo apenas por meio de fotos e vídeos. Estranho? Talvez, mas quem não tem os amigos de infância/ faculdade e etc por perto sempre dá um jeito de conhecer pessoas novas. Afinal, morar fora é sair da sua zona de conforto. Até nos pequenos detalhes.

Quem tem blog, até mesmo um blog que luta para sobreviver em meio a milhões de compromissos, como o meu, ainda recebe os comentários dos leitores e está sempre acompanhando os outros blogueiros também. Então o relacionamento online nesse sentido sempre existe. E é muito bacana ter contato com pessoas assim.

Depois de ontem, diria que mais bacana ainda é conhecê-las pessoalmente! Eu que sempre tive vergonha de ir a encontros e eventos do tipo, fui a um encontro de brasileiros em novembro do ano passado e acabei conhecendo pessoas tão, mas tão queridas, que pena mesmo foi não ter ido aos encontros antes! Ontem foi a despedida de solteira de uma delas – e eu não teria feito parte desse momento tão importante na vida de uma pessoa tão bacana se não tivesse saído do mundo virtual para o mundo real.

Então, sim, por relacionamentos com mais encontros face to face e menos mensagens no direct do Instagram!  E que venha o casório! #BrasileirosemLondres

Despedida de solteira

 

 

Dia histórico (e triste) na Inglaterra

O Reino Unido está fora da União Europeia, e o que isso muda na minha vida? Em um primeiro momento, nada. Ao mesmo tempo, muita coisa. Nada porque como não tenho passaporte europeu, já enfrento as rígidas regras de imigração para morar aqui. Para mim, não vai ser novidade o UK tentar fechar as portas na minha cara. Já lido com isso desde 2014, quando apliquei para o meu visto de esposa.

Mas, como eu disse, ao mesmo tempo, muda muita coisa. Esse talvez seja o post mais pessoal que eu já escrevi aqui, mas sinto que se eu não falar nada, vou explodir! De choque, de indignação, de tristeza mesmo. Desde que eu mudei para o UK eu sempre brinco com a minha família que “a rainha não me quer aqui, mas vai ter de me engolir”, em tom de brincadeira mesmo. Claro que estou me referindo ao Home Office e às centenas de páginas de documentos (e de libras) que preciso juntar para ter o direito de morar aqui. Mas digamos que esse é um jeito engraçadinho que encontrei de dizer para os meus avós, por exemplo, que sim, existem dificuldades ao morar longe do Brasil.

Até então, era o governo me dizendo que eu não era bem-vinda. E fazendo as regras de imigração cada vez mais difíceis de se cumprir. Para vocês terem uma ideia, estou prestes a renovar o meu visto de esposa por mais dois anos e meio e isso me custará:

£ 811 – taxa da aplicação para eles analisarem meus documentos e renovarem o visto.

£ 500 de taxa do NHS – o Sistema de saúde público daqui, que agora pede que imigrantes paguem uma taxa para usarem o serviço que é PÚBLICO. Sim, eu tenho de pagar essa taxa mesmo já pagando imposto normalmente como qualquer inglês. Pago duas vezes.

£400 – se eu quiser fazer a aplicação pessoalmente ao invés de pelo correio (o que talvez vou precisar, porque preciso do meu passaporte para ir para o Brasil no Natal).

£ 150 – para fazer uma prova oral de inglês e “provar” (a prova só dura 10 minutos) que eu consigo me comunicar com o meu marido. Mesmo eu trabalhando em uma empresa internacional e eles sabendo disso. Mesmo eu tendo feito uma prova de inglês avançado da Universidade de Cambridge e ter passado, apenas três anos atrás. Acho que eles acreditam que é possível desaprender uma língua em três anos mesmo morando e trabalhando no país!

£19 – tirar impressões digitais no correio

£ indefinido – uma porcentagem do valor aplicação paga ao correio para eles mandarem uma ordem de pagamento para o Home Office. O formulário dá a opção de pagar por cartão de crédito e você preenche os dados do cartão e eles lá fazem o pagamento. MAS a pessoa que está me ajudando com o visto disse que já viu vários casos em que os dados do cartão não eram aceitos e eles devolviam a aplicação para a pessoa fazer de novo. E se o visto já tivesse expirado, a pessoa tinha que voltar para o país de origem e aplicar de lá. Claro que não quero correr o risco e vamos pagar para o correio mandar a tal ordem de pagamento.

Enfim, o objetivo do post não é falar das regras do meu visto, que ainda incluem documentos para provar que nosso casamento não é uma fraude, que o Ben ganha o suficiente para me sustentar e abrir mão dos direitos dele como cidadão inglês por ser casado com uma brasileira, entre outras coisas. Como dá pra ver, para eu conseguir ter o direito de morar aqui já é um sufoco para nós. E por isso eu dou risada quando amigos comentam: nossa, eu achava que por vocês serem casados você não precisava de nada disso!

Então por que o Brexit me deixou tão triste? Em poucas palavras, porque antes era o governo me falando que eu não era bem-vinda. Agora são as pessoas. 52% da população do Reino Unido votou para que o país deixasse a Uniao Europeia e apesar das questões econômicas envolvidas, o foco da campanha era a imigração. Existem muitos europeus morando aqui e os ingleses reclamam que eles roubam as vagas de emprego e usam os hospitais e as escolas e etc.

Então, meu amigo, se ontem pessoas por Londres tinham adesivinhos colados na roupa dizendo “I’m in!” e o clima era de que poderíamos vencer essa, hoje o clima é de ressaca. Muita gente me disse “o problema não é você, você é bem vinda aqui”, mas ao mesmo tempo reclamam do tanto de europeu que mora aqui. Uma coisa que eles não entendem é: estamos todos no mesmo barco. O Brexit me afetando ou não, sou imigrante e sinto que o país escolheu virar as costas para mim. E para todos os meus amigos europeus e brasileiros com passaporte europeu. Vamos todos nos dar um abraço? 🙁

Sem contar os problemas econômicos que isso pode trazer – não sou especialista, mas de tudo o que li, as previsões não são boas. Tenho medo ainda de o país ficar mais vulnerável ao terrorismo. Posso estar exagerando aqui,  mas li uma matéria na BBC semanas atrás que questionava a mesma coisa. E para quem convive com a ideia de que o alerta de terrorismo no país está em um nível super alto, escolher ficar sozinho não me parece uma boa ideia. Ainda que seja uma questão econômica. Ainda que existam organizações para ajudar o país caso algo aconteça, ainda que isso ou aquilo. Ainda que não tenha nada a ver, ainda acredito que juntos somos mais fortes, que pena que mais da metade da população não pensa assim.

Também é triste pensar na separação do Reino Unido como um todo. Inglaterra e País de Gales queriam sair, Escócia (que já pediu para sair do Reino Unido) e Irlanda do Norte queriam ficar. Começam a surgir comentários de que quem tem universidade votou para ficar, quem não tem tantos privilégios votou para sair. Ouvi no metrô alguém dizendo que “basicamente, todo mundo que lê o The Sun votou para sair”. Começam os julgamentos, os comentários, as análises…e até isso é triste.

E agora, como fica o futuro do país que se mostra tão dividido? Por enquanto não há respostas, só perguntas e um futuro incerto. No fim das contas, o sentimento é o mesmo de quando Temer assumiu o poder no Brasil: não podia ser verdade, não podia ser possível, até que uma hora foi. Não podia ser verdade que a Inglaterra iria dar esse passo para trás. Não podia ser possível que um país que tem Londres como sua capital, a cidade mais cosmopolita do mundo, iria passar uma mensagem de intolerência. Não podia, mas foi. Que dia triste para se morar na Inglaterra.

brexit

 

Sobre morar em Londres

A grama do vizinho sempre é mais verde, né?  Quando eu falo para algum  brasileiro que um dia quero voltar a morar no Brasil, recebo olhares de surpresa e comentários de indignação do tipo: “vai vir fazer o que aqui?”, “Tá louca?”, “Coitado do Ben!”, “Queria eu ter a oportunidade que você tem”…e por aí vai.

Vira meio que uma conversa sem sentido, um lado tentando convencer o outro de que um ou outro lugar é melhor. Mas com o tempo a gente aprende que não tem melhor e nem pior, tudo depende do ponto de vista. Conheço muita gente que  mora aqui e quer voltar, assim como pessoas que não trocam Londres nem pela facilidade de se comer pão na chapa todo dia no Brasil.

Claro, hipocrisia seria falar que eu não valorizo todas as vantagens que tenho aqui em relação ao Brasil. Me sentir segura é a principal delas. Passar na frente do Big Ben + London Eye no ônibus indo para o trabalho é outra. É, quando lembro dos meus dias em ônibus lotados de Guarulhos até o metrô Tucuruvi, não tenho saudades de casa.

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Por outro lado, só quem mora há três anos longe da família sabe o valor que seu país tem. A  vida no Brasil pode ser diferente e mais difícil em alguns aspectos. Mas aqui não é tudo fácil,  não.

Por estar em um país estrangeiro, você tem que ralar muito mais para ter um bom emprego, por exemplo. Além de se esforçar mais para fazer novos amigos, lidar com preconceito (sim, faz parte às vezes) e lutar contra seu instinto tropical para não entrar em depressão no inverno e escuridão que tomam o país por seis meses no ano. Brinco que aqui não tem quatro estações, mas, sim, duas: inverno e primavera.

Claro que não é só dificuldade,  e muita coisa é compensada pelo tanto de lugares legais que Londres oferece, sem contar que sempre que dá a gente pode escolher passar um final de semana prolongado em outro país, o que é quase surreal para alguém que nunca tinha viajado para o exterior até março de 2012.

Portanto, sem essa de certo e errado, se cada um está feliz onde está, tudo certo.  Vida que segue e vamos ver o rumo que ela leva no futuro. Espero que o meu, daqui a alguns anos, seja acordar, colocar uma Havaianas, ir à padaria e pedir aquele pão na chapa que só as chapas gordurentas de padoca fazem igual.

Please mind the gap

Dias atrás estava pensando sobre a possibilidade de encerrar o blog, pois sempre que tentava escrever algo sentia que estava expondo demais a minha vida pessoal e, mais do que isso, a vida das pessoas que convivem comigo.

Mas, poxa, deixar para trás um projeto que sempre tive vontade de fazer por esse motivo não me parecia certo. Foi aí que decidir me envolver cada vez mais com o London by Nath – afinal, parte da minha vida já é compartilhada nas redes sociais que uso e, acreditem ou não, recebo mensagens de leitores do blog e de pessoas que eu conheço que me perguntam milhares de coisas sobre intercâmbio, visto, coisas para fazer em Londres ou dicas de viagem. E olha que nem acho que viajei tanto assim, também nem acho que meu intercâmbio foi o mais comum de todos porque no meio dele eu simplesmente meti as caras e comecei a trabalhar de babá, mas, enfim, tem gente por aí que pede minha ajuda e quer ouvir o que eu tenho a falar. Esses dias mesmo recebi um e-mail de uma leitora super querida, me perguntando sobre o sistema de saúde daqui, algo que, para a gente que mora aqui e já entende dos esquemas, é tão banal.

Assim, o London by Nath não só não será excluído, como tem a proposta de se manter mais frequente no universo on-line, sem a menor pretensão de ser nada mais do que um meio de contar minhas experiências e ajudar as pessoas que tem a mesma vontade que eu tive um dia: a de conhecer um lugar diferente, ver o que está além do nosso cotidiano.

Antes, o sub título era “A vida de uma jornalista longe de casa”, mas a cada dia que passa eu sinto que posso (e devo?) chamar essa cidade de lar. Não, não é o Brasil, mas é meu lar também. Então, pensando bem, não, não estou longe de casa. Um leitor me mandou um e-mail ontem perguntando porque eu tinha mudado parte do nome do blog e, bem, aí está a razão.

Aproveitando, o novo sub título vem para expressar exatamente o que eu quero reportar: as diferenças culturais entre o Brasil e a Inglaterra. Please mind the gap é uma frase constantemente repetida no metrô daqui – é para as pessoas ficarem atentas com o vão entre o trem a plataforma. Ou seja, para o “buraco” entre duas superfícies. No blog, o “gap” em questão se refere às diferenças entre os dois países. E como eu, como brasileira, enxergo esses contrastes.

Aos que me mandam mensagens e e-mails, o meu muito obrigada por me incentivarem a não desistir desse projeto!